O casamento perfeito

30 04 2008

 

Por Ligia Tuon

 

Como seria poder conhecer certas obscuridades escondidas no nosso planeta tão perfeitamente bem e de forma nítida, como assistimos a uma história na telinha dos cinemas? Será que é possível? Aparentemente sim.

 

O antropólogo e cineasta Jean Rouch conseguiu incorporar a magia e a verossimilhança da sétima arte com a desconhecida e exótica realidade. Em seus documentários ele procura captar a essência de costumes estranhos aos olhos ocidentais.

 

É o que acontece no curta Os Mestres Loucos (1955), no qual Rouch filma, em apenas um dia, um ritual um tanto quanto excêntrico de uma seita da capital de Gana: Os Haoukas. No início do documentário, o diretor avisa: O filme é forte e as imagens podem ser pesadas para a nossa cultura. Ele não está exagerando, o telespectador deve ter estomago forte e muita curiosidade.

 

Os Haoukas são jovens trabalhadores de Accra e se reúnem anualmente para realizar uma grande cerimônia. Após a confissão pública, na qual os participantes têm o dever de contar aquele segredo mais escondido e que não seria aceito pela sociedade, começa o rito da possessão. Entorpecidos por uma substância alucinógena, os jovens africanos entram em uma segunda realidade, na qual o grupo se hierarquiza e fica fora de si.    

 

Surgem os personagens dominantes da nova realidade, como o motorista de caminhão, o condutor da locomotiva, o general, a mulher do capitão e a figura principal: O Governador. A cerimônia atinge seu ápice quando os Haoukas devoram um cão. Eles o fazem para provar que são mais fortes e não temem desafios. No final da festa todos voltam ao normal e retomam suas atividades corriqueiras.

 

No decorrer dessa viagem ao desconhecido, não podemos deixar de nos perguntar: “Se esses africanos não conhecem certos remédios quem permitem que eles não sejam anormais, mas perfeitamente integrados ao seu meio. Remédios que nós ainda não conhecemos.”