Numa casa qualquer…

17 04 2008

 

Por Fernanda Emmerick

 

O filme “A casa de Alice”, de Chico Teixeira, ficou em cartaz de outubro de 2006 a fevereiro desse ano. O longa, elogiadíssimo, será apresentado na 15 ° edição do Festival CineLatino da Alemanha. Este é dedicado ao cinema latino-americano e espanhol. Ocorrerá entre 16 e 30 de abril, nas localidades de Sttutgart, Heidelberg, Frankfurt, Freiburg e Tübingen.

 

 

O drama relata uma família de classe média baixa, a qual vivencia problemas emocionais e estruturais. Alice, interpretada pela atriz Carla Ribas, é manicure e casada com um taxista, Lindomar (Zé Carlos Machado). O casamento possui uma relação fria e desgastada. Seu marido mantém um caso com sua vizinha, uma garota muito mais jovem que ele e ela inicia um relacionamento, então, com o ex-namorado, e atual marido de uma cliente, Nilsson (Luciano Quirino).

 

A vida dentro de casa é sofrida e sacrificante, e a mãe de Alice, Jacira (Berta Zemel) é quem cuida da casa e vê tudo o que acontece em seu interior, apesar de  no decorrer do filme sofrer de problemas oftalmológicos. Os filhos, todos estudantes, brigam constantemente. Dependentes dos pais e da avó, alguns deles escondem segredos. Lucas (Vinícius Zinn) é o mais velho dos três filhos. Machista e autoritário é garoto de programa. Edinho (Ricardo Vilaça), o do meio e preferido da avó, furta dinheiro da mesma e leva para casa aparelhos eletrônicos e acessórios, sem explicação plausível. Junior (Felipe Massuia), o caçula, é mimado e apegado ao irmão mais velho. Os conflitos são muitas vezes desmascarados em momentos de refeição, os únicos em que a família realmente se reúne.

 

O filme relata mais que intrigas familiares, mas intrigas humanas. A vida de pessoas com pouco espaço físico e recursos financeiros, as quais não têm direito a sonhos e progresso. Sua primeira cena é constituída pela aparição de um rato que é, posteriormente, envenenado por Jacira. Se analisado de forma metafórica, pode-se concluir que o filme mostrará a sujeira existente na casa e o fato de a avó desejar eliminá-la, mesmo que se calando. A vida de Alice demonstra não só isso, como também a prisão emocional na qual a personagem vive. O falso moralismo e as mentiras são permanentes na vida da manicure e seu marido, que mentem para seus clientes sobre suas próprias vidas. Relacionamento perfeito, filhos em sintonia e prosperidade são características ausentes no cotidiano dos personagens, mas existentes em seus falsos relatos.

 

A “cegueira” desenvolvida por Jacira refere-se ao fato de a avó presenciar e conhecer a real vida de todos os membros da família. Apesar do conhecimento desses fatos, finge não enxergar a degradação familiar e não opina. A cegueira é compreendida como emocional, uma mulher que fica cega de tanto ver.

 

Inúmeras cenas de silêncios, demosntram claramente  um cotidiano e relações frias, nas quais calar-se é, muitas vezes, a melhor solução.

 

O desfecho não é transformador e mostra que a vida de Alice se manterá igual, o que ilustra perfeitamente o dia-a-dia de muitas pessoas. A obra tem, assim, função de espelho.