“O Passado”

Por Fernanda Emmerick
O drama “O Passado” é dirigido por Hector Babenco, o qual diz ter cansado de temas sociais e foca, nessa obra, em poesia e emoção. Traz em seu elenco o ator mexicano Gael García Bernal e tem seu início marcado pela separação, após 12 anos de casamento, de Rimini (Bernal) e Sofia (Analía Coucevro). A trama, conduzida a partir daí, é baseada no romance homônimo do escritor argentino Alan Pauls.
Após o término do casamento, Rimini vai embora para outro apartamento e passa por inúmeros relacionamentos com outras mulheres. Porém, ele e Sofia não fizeram a divisão das fotografias que acumularam ao longo da vida, motivo usado por ela para continuar perseguindo o ex-marido.
O primeiro relacionamento do protagonista, após a separação, acontece com uma modelo ciumenta, Vera (Moro Anghileri).Posteriormente, Rimini, que é tradutor, envolve-se e se casa com sua colega de trabalho, Carmen (Ana Celentano). O personagem tem um filho com a esposa e apesar de viver um conflito em sua profissão, devido a um bloqueio que o fez esquecer as línguas que conhecia, sente-se feliz depois de tanto tempo. Sofia, no entanto, continua assombrando a vida do ex-marido e no ápice de sua loucura, seqüestra por um dia seu filho. O problema de memória faz com que Rimini não se lembre perfeitamente como o seqüestro aconteceu, o que acarreta na separação de Carmen e proibição de se aproximar do filho.
Após o ocorrido, ele passa a morar sozinho e enlouquecer progressivamente. Ao final, Rimini volta para Sofia e serve de cobaia para um grupo, criado por ela, de mulheres que perderam seus amores. No entanto, após separar as fotos, sente-se livre e pronto para outro amor.
O filme é constituído por muitos clichês cinematográficos, simbolismos e metáforas. Ao separa-se e mudar-se de casa, o personagem acorda em seu primeiro dia de “liberdade” com um sol forte e invasor por meio da janela, extremamente focada na cena. Isso remete ao fato do nascimento de uma nova vida. Outra análise diz respeito ao fato de que, quando o protagonista está traduzindo precisa de cocaína para manter-se atento e capacitado. Porém, o local que usa para utilizar a droga é uma foto de Sofia, a única com qual ele ficou. Demonstração clara da dependência que possui não só da droga, como dela. Ao mesmo tempo em que depende, porém, perde progressivamente o respeito e o carinho pela mesma, uma vez que a usa como suporte para tal ato.
Outro clichê perceptível trata-se de Vera aparecer vestida de vermelho, segundos antes de sua própria morte. Após a morte, uma cena de forte chuva, e a passagem do Rimini por ela, demonstra a mudança intensa que aconteceria dentro de sua vida. É nesse momento que se apaixona por Carmen e constituí uma família estável, além do longo tempo sem a presença de Sofia. Consequentemente, perde sua memória para as línguas que conhecia. Sem explicação no filme, pode se concluir a relação desse fato com a falta da cocaína ou com o forte desejo de apagar o passado, que fez então com que tudo fosse apagado.
A narrativa é conduzida pela relação humana entre os personagens, os encontros e desencontros da vida. A história é contada com diversos saltos no tempo, portanto não se vê o protagonista apaixonando-se, mas sim já imerso em novas relações amorosas. Esses relacionamentos servem como aprendizado para ele, o qual vai se modificando sempre. Porém, não deixa de ser passivo e sempre manipulado pelas mulheres que passam em sua vida. Não se trata de um típico herói masculino, mas de um homem mais frágil, diferente do que se encontra constantemente na mídia. Ele vive durante todo o filme um amor que acabou, mas é eterno.